O Bon Jovi já passou por quase tudo nessa vida roqueira. Em sua quarta década, a banda formada em Nova Jersey em 1983 pode se dar ao luxo de pegar leve.
— Acabamos de chegar da Europa — conta o tecladista David Bryan, um dos três fundadores na banda ainda no barco, ao lado do cantor Jon Bon Jovi e do baterista Tico Torres. — Foram 21 shows em 18 países. Agora temos alguns dias de folga e em setembro vamos aí para a América do Sul para cinco shows (além do Rock in Rio, no dia 29 de setembro, a banda se apresenta em Recife, no dia 22, São Paulo, dia 25, Curitiba, dia 27, e Lima, no Peru, dia 2 de outubro). Serão 26 shows em 2019.
Segundo ele, a banda chegou a um estágio em que pode levar a vida com calma.
— Hoje em dia, em que os lançamentos de discos perderam a importância, o que vale é o show, é saber fazer ao vivo — avalia ele, que também compõe trilhas sonoras de musicais, como “Memphis”, e está preparando um sobre a Princesa Diana. — Mas conosco, mesmo nos tempos do LP e do CD, nunca houve uma norma. Sempre gravamos e lançamos discos quando quisemos, e passamos a vida na estrada. Só que hoje em dia não precisamos mais fazer 100 ou 130 shows por ano e acabar uma turnê achando que vamos morrer (risos).
O quinteto americano (além do trio fundador, completam a banda o baixista Hugh McDonald e o guitarrista Phil X) faz parte do seleto (e, aparentemente, em extinção) clube das bandas de rock que se apresentam em estádios.
— Sim, nós somos afortunados por isso, há muitos anos nos apresentamos em lugares como capacidade para 80 mil pessoas, algo por aí — diz ele. — Hoje em dia, são umas cinco bandas de rock que fazem turnês em estádios, como nós, os Rolling Stones e o U2.
Ele não vê bandas mais jovens com esse tamanho.
— Quem será o novo U2, ou o novo Bon Jovi? — pergunta. No momento, não sei, mas as bandas estão por aí, eu ouço muitas, nos discos e nos serviços de streaming. Acho que filmes como “Bohemian rhapsody”, sobre o Queen, devem estimular muitos garotos a formarem bandas de rock.
O show em setembro marcará a terceira apresentação do BJ no Rock in Rio, depois de 2013 e 2017 (ainda foram duas nas versões madrilhenha e lisboeta do festival e uma, a primeira no Brasil, em janeiro de 1990, no Hollywood Rock, então concorrente do megaevento).
— Tocamos tantas vezes aí, não foi? — lembra ele. — É realmente uma bênção. É um show imenso. Ficamos muito felizes por frequentar o Brasil há tanto tempo, ver como as coisas mudaram. E, nos shows, encontrar fãs que nos acompanham há todos esses anos, ao lado de outros mais novos, seus filhos, às vezes netos...
Ele vê as três últimas vindas como uma época de consolidação da atual formação da banda.
— Em 2013, Tico não pôde ir, teve que fazer uma operação de emergência, e Richie (Sambora, guitarrista e cofundador que compôs a maior parte dos sucessos com Jon Bon Jovi) tinha acabado de sair da banda — lembra ele. — Foi um desafio, mas a vida numa banda de rock é cheia deles, né? Em 2017 já estávamos mais estáveis, Tico, 100%, e lançávamos “This house is not for sale” (disco de 2016 que tem como tema central a união da banda).
Dois anos depois, a mesma turnê volta ao Brasil.
— Como eu disse, não nos obrigamos a lançar discos de tempos em tempos — diz ele. — Temos entre 40 e 50 músicas ensaiadas. A cada noite, Jon pensa no set list e vamos em frente. Às vezes damos uma ensaiada na nossa sala de afinação.
Segundo ele, ainda não há planos para um novo disco. Músicas como “This house is not for sale” e “Roler coaster” tiveram boa repercussão nas redes, mas nada como os clássicos “Livin’ on a prayer”, “It’s my life” e “You give love a bad name”, que somam quase um bilhão de execuções no Spotify.
— Poderíamos ficar horas aqui conversando sobre a internet — diz ele. — Esse é o lado bom: você joga alguma coisa em uma plataforma e bilhões de pessoas têm acesso, no mundo todo, na mesma hora. Mas, por outro lado, a música ficou mais descartável, e isso é uma pena. Sinto falta dos LPs, que você se sentava para ouvir, olhava a capa, o encarte... mas sei que os tempos são outros, as coisas são como são.